5.8.06

Receita de bolo – parte II (realidade brasileira)

Na receita de bolo - parte I - critiquei a abordagem conservacionista determinista que tenta explicar padrões complexos de maneira simplificada e cartesiana. Acho que é de consenso geral que a questão ambiental é complexa. Por isso, este assunto deve ser tratado de forma integrada e multidisciplinar. Pesquisas que enfocam esta problemática de maneira simples, culpando grupos humanos específicos pela destruição, no meu ponto de vista só servem para serem inseridos no Currículo Lattes e servirem de citação para outro trabalho semelhante. Trabalhos que tentam importar fórmulas prontas de conservação têm um apelo romântico e não se encaixam na realidade sócio-ecônomica brasileira.
Já critiquei muito, talvez deva também apontar algumas possíveis soluções ou diretrizes para verdadeira conservação de biomas brasileiros:


1- Falta pesquisa básica, como queremos aplicar nosso conhecimento em ações inovadoras se não conhecemos quase nada da biodiversidade brasileira. Identificação de novas espécies e mapas de distribuição geográficas dos organismos é essencial para o planejamento de ações de gestão ambiental.

2- Uma solução interessante é criação de um banco de dados, muita coisa já feita no Brasil, só que a informação se perde, muitos trabalhos são financiados para fazer a mesma tarefa que outro já fez. No estado de São Paulo este trabalho já é feito pelo Centro de Referência em Informação Ambiental (CRIA), mas ainda esbarra em burocracia e dificuldade de adquirir dados.

3- Todo município deveria ter um Sistema de Informação Geográfica (SIG) obrigatório no Plano diretor, isto não seria caro, muita coisa já está pronta em bases de dados do IBGE, NASA, USGS, etc... O programa Biota FAPESP fez em 2004 o levantamento florestal do Estado de São Paulo, muita desta informação não é usada, e é pouco aproveitada pelos municípios. Cada município deveria ter mais autonomia em relação a políticas ambientais, com este SIG, por exemplo, poderiam se inferir áreas de risco, porcentagem de reserva legal, áreas de proteção permanente que são bases primordiais para um planejamento ambiental.

4- Colocar na mesma mesa de reuniões opiniões extremas objetivando chegar a um lugar comum. Um esforço deve ser feito para que haja uma comunicação entre opostos seja efetivada. Preservacionistas, conservacionistas, sociedades tradicionais, tecnocratas e governo terão que encontrar um diálogo comum urgente.

5- Só depois de lesada por uma lei ou decreto a comunidade cientifica aparece para reivindicar; uma melhor participação dos cientistas na elaboração das leis poderia evitar estes problemas.

6- Enquanto não houver um planejamento territorial adequado (ver novamente 3), o crescimento desordenado das cidades, conurbações, especulação imobiliária, reivindicação de terras e desmatamento irão ocorrer. Nem mesmo uma fiscalização milagrosa pode encontrar todos os culpados sem um planejamento adequado.

7- Talvez uma solução a longo prazo para muitos políticos, a educação é fundamental para formação de jovens conscientes e para construção de uma massa crítica que um dia poderia tirar o Brasil deste coronelismo sem fim. A formação de analfabetos funcionais, venda de diplomas superiores e títulos de doutores é uma realidade grotesca. Outro problema é que a ciência é pouco divulgada, é importante a população saber os benefícios e avanços do mundo cientifico.

8- Importar fórmulas prontas de conservação no Brasil é ineficiente, conhecer a realidade social e econômica das regiões brasileiras é de vital importância para criação de ações conservacionistas. Ações egoístas e arrogantes para proteção de áreas naturais a qualquer custo, só faz crescer a insatisfação de populações locais. Queremos parques para elite usar seus equipamentos de montanhismo, trecking e de observação de aves; ou parques que garantam a conservação da biodiversidade e ao mesmo tempo funcionem com um espaço para o uso público.

9- Novas alternativas de produção verdadeiramente ecológicas devem ser financiadas e criadas pela iniciativa privada e estado. Será que selos verdes, ISO, certificadoras realmente funcionam? Quem certifica as empresas certificadoras? O álcool é uma boa alternativa? Mesmo empregando mão de obra escrava, acabando com os solos e entupindo nossos pulmões de cinza de cana.
10- Uma aplicação da lei que seja justa, culpando os verdadeiros criminosos ambientais do país e também ajudando a evitar erros e trapaças em licenciamentos e estudos de impactos ambientais.
Utopia? Talvez sim, porém não assumo que seja fácil. Com união e objetivos comuns, que é realmente salvar a biodiversidade, podemos começar a reverter este quadro.
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4 comentários:

João Carlos disse...

Parabéns, principalmente por duas colocações que parecem jamais entrar nos cômputos:

«Talvez uma solução a longo prazo para muitos políticos, a educação é fundamental para formação de jovens conscientes e para construção de uma massa crítica que um dia poderia tirar o Brasil deste coronelismo sem fim.»; e

«Importar fórmulas prontas de conservação no Brasil é ineficiente, conhecer a realidade social e econômica das regiões brasileiras é de vital importância para criação de ações conservacionistas.»

Já pensou que o próprio sistema educacional (tão "importado" quanto os projetos conservacionistas que você critica), tenha que ser total e profundamente reestruturado para parar de alienar os estudantes?

Já chega de "engolir sem mastigar" os modelos europeus (e de suas filiais coloniais) como paradigma para tudo.

João Giovanelli disse...

João Carlos, com certeza o sistema educacional deveria ser profundamente reestruturado, principalmente nas Universidades.
O problema que reestruturação universitária atrapalha o comodismo de muitas pessoas que "trabalham" nestas instituições, quando o assunto é avaliação de docentes então! Nem se fala.
Sobre o problemas das escolas de ensino médio e fundamental brasileiras, a solução é reabrí-las porque no meu entender as atuais não funcionam como escolas.

João Alexandrino disse...

Parabéns pelo conteúdo programático João! É preciso juntar os "homens bons" do Brasil e pensar em formas de divulgar as suas ideias de forma ampla. Esses homens não têm espaço no poder nem nas TVs, mas quem sabe na internet? Quem sabe a catálise de revoluções reais não esteja na blogosfera virtual? Abs.

Maria Guimarães disse...

joão, acho que com essas reflexões você faz uma contribuição real. espero que mais e mais pessoas venham ler, continue assim!